Congresso Internacional

A Bíblia na Cultura Ocidental: Milénios de Civilização

Apresentação

A Bíblia é uma biblioteca de textos, de origem longínqua, uma obra multicultural que expressa uma síntese de culturas. Se, por um lado, os escritos hebreus denotam a influência das culturas egípcia e persa, por outro, não podemos entender as Escrituras cristãs sem alusão às culturas grega e romana. Quando a mundialização é um facto dos nossos dias, a (re)visitação desta obra de apelo universal pode lançar uma luz sobre as relações interculturais na aldeia global.

A Bíblia também é uma obra literária, cuja leitura, ao longo de milénios, influenciou o pensamento de pessoas, a vida de comunidades, a origem de nações, o curso dos acontecimentos e a história das civilizações. Desde os primórdios da fundação de Portugal à contemporaneidade, o texto perpassou regimes políticos antagónicos, períodos económicos distintos e diversas correntes de pensamento filosófico. A literatura, o teatro, as artes, a educação, a economia, o direito e tantas outras ciências foram impregnadas de uma metafísica bíblica. As Escrituras judaico-cristãs continuam a ser a chave de leitura e interpretação para todo o património humano desde o espiritual ao material; a verdadeira face de “identidades”. Neste sentido, o estudo da Bíblia apresenta-se como um enriquecedor contributo para a compreensão da nossa identidade e memória coletiva. Além do valor religioso, existem valores históricos, filosóficos e estéticos, que não podemos perder de vista, sob pena de hipotecar a nossa autocompreensão como “comunidade imaginada” e indivíduos.

Essencialmente, a Bíblia expressa-se como um repositório de palavras de Deus e dos homens. Por um lado, como carta magna do universo da existência humana, por outro, como observatório do ordinário dessa mesma experiência. Além disso, o exercício de tradução das Sagradas Escrituras tem vindo a constituir-se como um corpus religioso, espiritual e cultural, cujos múltiplos procedimentos ora bebem, ora influem nas tradições culturais de cada povo. Livro indissociável da raiz da fundação de Portugal, é o livro “transportado” pelos portugueses aos quatro cantos do mundo – povo que soube “revigorar” esse carácter sempre universal da Bíblia – iniciando esse destino de globalização, marca tão impregnada de “alma lusitana”.

Em 2019 comemora-se o 200.º aniversário da primeira edição da Bíblia completa da mais antiga tradução em língua portuguesa (Londres, 1819), realizada no século XVII pelo “ilustre desconhecido” João Ferreira d’ Almeida. No que respeita ao dizer a Bíblia, na língua dos nossos afetos, a tradução de João d’Almeida tem sido considerada, por uns, como “um tesouro de vocabulário”, e tida, por outros, como “um marco da cultura e da língua portuguesa”. Contudo, esta obra vem permanecendo numa clandestinidade cultural, que tem ocultado o mérito e o prestígio reconhecidos pela maioria dos estudiosos.

Retirando da sombra e do esquecimento o legado bíblico no percurso intelectual, artístico e cultural na sociedade portuguesa, no âmbito deste bicentenário, o Congresso Internacional A BÍBLIA NA CULTURA OCIDENTAL: MILÉNIOS DE CIVILIZAÇÃO pretende apresentar uma compilação de análises críticas sobre a relevância da Bíblia como um «bem» cultural, a pertinência dos «lugares» que ocupa na construção da cultura e sociedade lusitana e, ainda, o universo da tradução e edição dos textos sagrados do Cristianismo. Num dissecar científico da Bíblia, através do cursar transversal pelas ciências, nas suas especificações, proceder-se-á à identificação de paradigmas determinantes na construção da(s) identidade(s) cultural.

O trabalho científico deste Congresso oferece a oportunidade de aprofundar, através de uma dinâmica multidisciplinar, espírito ecuménico e interreligioso, o universo transversal bíblico, que emerge desde a complexidade das dinâmicas de tradução, das dinâmicas socioculturais e religiosas atuais, às novas realidades contemporâneas de comunicação e informação da sociedade atual, altamente tecnológica. 

No seu curso final, este Congresso é a oportunidade de conhecimento da Bíblia — essa obra traduzida em mais de dois mil e quatrocentos idiomas — e, simultaneamente, uma oportunidade de reler o que se entende por “civilização ocidental” e cidadania. A reflexão dos princípios e valores revisitados assume-se como um exercício cívico que torna visível os conceitos de liberdade, justiça e solidariedade.